Muita gente tem mostrado, em vídeo, as habilidades e truques que tem com a bola. Chama-se isto de freestyle. Billy Wingrove é considerado o melhor do mundo nesta área. Ele tem diversos vídeos no YouTube.
Já tenho alguns mas ainda não publiquei pois, óbvio, não gostei. Estarei publicando um logo, logo. Mas o post vale pela discussão sobre a importância de ter um vídeo quando se pensa na carreira de jogador de futebol. Lógico que o melhor vídeo é aquele que mostra você em campo, em um jogo de futebol. Mas o freestyle tem também o seu papel neste nosso caminho.
Venho treinando com um jogador brasileiro que hoje se aposentou mas que viveu clássicos no Brasil e participou de clubes e partidas em outros países. Não vou dizer o nome dele porque não pedi autorização ainda. Cada palavra dele é importante para mim pois é como se ele me pusesse em campo, não como na televisão, mas lá no gramado, que é uma coisa que as pessoas não contam como é. As pessoas sabem criticar o jogador sem saber como é ficar no lugar dele.
Íamos andando e ele me contou naquele domingo sobre seu primeiro clássico no Brasil: Vitória e Bahia. Para quem conhece o futebol do nordeste, sabe que este é um “duelo de líderes”, como os locutores costumam dizer. Da mesma forma que é aqui no sudeste é um jogo entre São Paulo e Corinthians ou Palmeiras.
Segue o relato dele, do jeito que me lembro. Assim você participa disso também: essa coisa da gente ouvir quem já passou pela experiência ajuda muito para se entender porque tem que se preparar e dar duro mesmo para chegar lá e mostrar jogo.
“Já no ônibus meu coração batia acelerado. Quando chegamos ao estádio, e a porta do ônibus abriu, vi aqueles guardas todos vindo na nossa direção para nos escoltar. O pessoal gritava no estádio. Fomos para o vestiário. Lá embaixo, o teto tremia por causa dos torcedores gritando e batendo o pé no chão. Meu coração continuava batendo mais forte ainda. Aí o técnico veio e me disse que eu ia entrar na escalação em vez de ficar no banco. Fiquei branco mas respondi tranqüilo: “Pode deixar, tudo bem.” Quando entrei no gramado, com meus colegas, e vi aquela multidão gritando, aplaudindo, batucando, minhas pernas tremiam. Mas daí joguei, no começo meio inseguro mas depois fui esquentando e aquele barulho que primeiro me aterrorizou, começou a me dar força. Nunca vou esquecer esta experiência.”
A gente se despediu e fui para casa pensando em cada palavra dele, imaginando o barulho da galera e a emoção.
Venho há algum tempo participando de peneiras. Na primeira peneira que fui, estava emocionado. Achei que iam ver que eu era bom e já iam me escolher. Isto não aconteceu. A frustração me fez pensar sobre o que os adultos à minha volta diziam, que aquilo era máquina de dinheiro. Em cada peneira se paga exame médico, inscrição… Em clube que faz várias peneiras por ano, era dinheiro mesmo. Bastava olhar a fila de jogadores e fazer os cálculos.
Por outro lado, vi os aspectos positivos que foram as lições que aprendi. Observei que ser bom jogador e conhecer os fundamentos é uma coisa, outra é entrar em campo e mostrar que joga bem. O gol nem é importante mas, sim, que você mostra que não perde bola, dribla sabendo o que faz, é rápido nos passes, sabe mover o jogo na sua direção. Os moleques não me passavam a bola e vi que eu tinha que gritar e pedir a bola. Fiz isso de tudo que foi jeito, mas todo jogador ali queria é ficar com a bola e tentar um gol. Que não saía… Se eu pudesse dizer o que achei da primeira peneira, eu diria que foi um jogo contra o egoísmo de cada um e zero de sentido de equipe. Mas era um teste seletivo. Acho que não poderia ser diferente. Mas será que no campo é diferente, com todo mundo querendo subir ganhos pelo estrelismo?
Outra coisa que aprendi foi na segunda peneira. É uma coisa que minha mãe chama de Protagonismo. Eu precisava aparecer lá no campo. Tinha a ver com aquele negócio de estrelismo, mas era necessário. Daí fiz o máximo que pude para que eu me destacasse.
A família é importante nestes momentos porque dão dicas. Lógico que gente que soma e não gente que vem para criticar. Esportista precisa de estímulo e não de bronca. Assim como minha mãe me falou do protagonismo que era necessário em campo, meu pai me incentivou o tempo todo, falando das coisas boas que fiz. E em uma peneira que meu tio foi, ele falou para que eu prestasse atenção em coisas que eu fazia, por treinar em campo society, mostrando como no futebol de campo era diferente.
Se eu não tivesse participado destas peneiras, eu não teria estes aprendizados. Vale a pena participar de peneiras. É como se a gente já começasse a se profissionalizar. Dá orgulho vestir aquela camisa do time e entrar com gente séria, marcando tudo que a gente faz. Se eles ganham dinheiro, sorte deles. Espero apenas que escolham a gente.